Medicamentos criados para diabetes e obesidade viraram febre nas redes sociais para emagrecimento rápido. Especialistas alertam para riscos como desnutrição, ‘efeito rebote’ e gatilhos para anorexia

Se de um lado das redes sociais existe a pressão pelos músculos, do outro reina a tirania da magreza extrema. Nos últimos meses, nomes comerciais como Ozempic (semaglutida) e o recém-chegado Mounjaro (tirzepatida) dominaram as conversas no TikTok e no Instagram. Apelidados de “canetas emagrecedoras”, esses medicamentos se tornaram o objeto de desejo de quem busca perda de peso rápida, muitas vezes sem indicação médica ou necessidade clínica real.
O fenômeno do uso off-label (fora da bula) preocupa autoridades de saúde. Embora seguros e revolucionários para o tratamento de Diabetes Tipo 2 e Obesidade, o uso puramente estético dessas substâncias esconde perigos imediatos.
Para o médico de família e comunidade Silas Farias, o maior risco está na banalização do acesso ao fármaco.

“Muitos pacientes chegam ao consultório pedindo a receita porque viram na internet que funciona, sem entender a fisiologia por trás da droga. O perigo é tratar uma medicação complexa, feita para controle glicêmico de diabéticos, como se fosse um suplemento inofensivo. Sem o monitoramento de um médico, o paciente corre risco de hipoglicemia, desidratação severa e, principalmente, do efeito sanfona, já que não houve reeducação do estilo de vida”, alerta Dr. Farias.
O perigo da “Ozempic Face” e a anorexia
A perda de peso abrupta gerada por esses fármacos tem criado um novo efeito colateral estético: a chamada “Ozempic Face”, caracterizada por um rosto flácido e envelhecido devido à perda rápida de gordura e colágeno facial.
No entanto, o risco mais grave é invisível. Psiquiatras e nutricionistas alertam que a supressão química do apetite pode servir de gatilho para transtornos alimentares graves, como a anorexia nervosa. Ao eliminar a fome, o medicamento valida o comportamento de privação alimentar em pessoas que já possuem predisposição a distúrbios de imagem.
Você se olha no espelho e vê defeitos que ninguém mais vê? Entenda como a pressão estética pode evoluir para a dismorfia corporal e transtornos mentais graves com a nossa reportagem.
Perda de massa magra: o corpo enfraquecido
Outro ponto crítico é a qualidade do peso perdido. Sem acompanhamento nutricional e treino de força, grande parte dos quilos eliminados com as “canetas” é, na verdade, massa muscular. O resultado é um corpo magro, porém fraco e sarcopênico (com pouca musculatura), o que prejudica o metabolismo a longo prazo.
Curiosamente, esse efeito de perda muscular é o oposto exato do que buscam os usuários de anabolizantes, criando dois extremos perigosos na busca pelo corpo ideal.
Enquanto uns arriscam a saúde para secar, outros usam bombas para crescer. Há os riscos cardíacos e hormonais do uso de anabolizantes para fins estéticos.
Saúde não é estética

A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) reforça: a obesidade é uma doença crônica que exige tratamento contínuo. Banalizar o uso dessas medicações para “entrar na roupa do final de ano” não apenas coloca a saúde de indivíduos saudáveis em risco, mas também gera desabastecimento para os pacientes diabéticos que dependem do remédio para sobreviver.
Por: Apolo Rocha, Davi Araújo, David Pacheco, Juliana Barbosa e Rafaela Paim